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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Santo Antônio, o Bairro que nasceu da Colina (Parte 1)

 Colina do Santo Antônio

 Avenida João Ribeiro | Foto: MELINS, Murillo. Aracaju romântica que vi e vivi.
 Anos 40 e 50. Aracaju: UNIT,2007.

 Placa na entrada do Cemitério Santa Isabel | Foto: José de Oliveira B. Filho

 Bonde puxado por burros | Foto: BARRETO, Armando. Cadastro industrial,
 comercial, agrícola e informativo de Sergipe, 1953.

 Colina do Santo Antônio | Foto: Revista Renascença nr. 08 – 1935

 Praça Princesa Isabel na década de 30, com o Cemitério ao fundo 
 Foto: Acervo da Biblioteca Pública Epifânio Dórea

Avenida João Ribeiro, vista do alto da Igreja do Santo Antônio | Foto: BARRETO, Armando. Cadastro industrial, comercial e informativo de Sergipe,1934.

Publicado originalmente no site Expressao Sergipana, em 2 de dezembro de 2017

SANTO ANTÔNIO, O BAIRRO QUE NASCEU DA COLINA (PARTE 1)

Por Osvaldo Ferreira Neto 

O bairro Santo Antônio ganhou a enquete entre os leitores da Expressão Sergipana e dará continuidade ao especial “Aracaju e seus bairros”. Então, a coluna ‘Senta que lá vem história’ vai contar um pouco da história deste lugar tão especial para os aracajuanos durante as próximas semanas. Vamos lá subir a Colina e desvendar as memórias e tradições deste pedacinho de Aracaju?

OS PRIMÓRDIOS DO POVOADO DO SANTO ANTÔNIO DA COTINGUIBA

Tudo começa antes da cidade de Aracaju existir. Como dizia o historiador Sebrão Sobrinho: “de muito tempo já existia o inóspito povoado sob a tutela da freguesia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro da Cotinguiba, atual município de Nossa Senhora do Socorro, antes de Aracaju ser fundada”. Também existe registro de uma carta do vigário José da Maria dos Santos Lima, que descreve em 1757 o pequenino povoado do Santo Antônio da Cotinguiba: “que veria homenagear o santo português franciscano, pois no povoado avia no alto da Collina onde se via a Barra, otos casas umildes e uma ermida com emagem sacra do santo”.

Com o passar do tempo, o número de casas foi aumentando na aldeia. A sua maioria habitada por pescadores que trabalhavam no rio Sergipe. A capela de taipa que resistia aos anos, com o seu Santo Antônio, no ano de 1843 veio abaixo depois de uma forte chuva e ventos. O santo então ficou na única casa de alvenaria da localidade. A do senhor João Pedro Cunha da Silva, proprietário de algumas terras na região. O vínculo da comunidade com Santo Antônio persistiu pelo tempo até os dias atuais.

A MUDANÇA DA CAPITAL

Em 1854, um órgão público era instalado na Colina. A Mesa de Rendas passou dois meses até ser transferida definitivamente para a Praia da Olaria, onde iria ganhar o prédio próprio na atual Praça Gal. Valadão. Nas margens do rio Sergipe, em 17 de março em 1855, o agora povoado do Santo Antônio do Aracaju, participou da transferência da capital como referência geográfica e jurídica na fundação de Aracaju.

Portanto, o projeto do Quadrado de Pirro não se adequava à colina do povoado do Santo Antônio. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a cidade foi projetada para a planície. Após a transferência, o povoado vai inclusive ser isolado dos interesses da província. Fato curioso que reforça o isolamento é que os mudancistas estavam cansados dos morros e colinas de São Cristóvão e desejosos ao porto nas margens do rio. Mesmo assim, Inácio Joaquim Barbosa ordenou a abertura de uma estrada que ligasse diretamente a cidade ao povoado.

A obra só começou com Barão de Maruim, em 30 de novembro 1855 e continuou com Salvador Correia de Sá e Benevides, sob a responsabilidade de Pirro. Ladrilhada em 17 de abril 1857, a estrada sai da Fonte do Coqueiro (início da atual Av. Carlos Firpo, onde se encontra o antigo Edifício do INSS) e chega até a porta da nova e reconstruída Capela de Santo Antônio. O povo logo denominou de “Estrada Nova” (hoje conhecida como Av. João Ribeiro) e permaneceu assim por um bom tempo.

O CEMITÉRIO E AS NASCENTES DO MANÉ PRETO

Em 25 de fevereiro de 1862, fundou-se o novo cemitério da capital no Santo Antônio. O campo santo foi financiado pelo Imperador D. Pedro II. O Cemitério de Nossa Senhora da Conceição (atual Cemitério Santa Isabel) abria as suas covas para os defuntos de Aracaju e região.

Nesse período, a cidade não tinha uma rede de abastecimento de água potável. O que ajudou a população no abastecimento foram as fontes. E nas proximidades, ao norte da colina, irá se destacar as maravilhosas águas limpas da Fonte do Mané Preto. Ela foi disputada pelos aracajuanos por muito tempo. Nela era vendida água para todos os cantos da capital. O Mané Preto pertencerá ao bairro Santo Antônio até 1982.

O BAIRRO SANTO ANTÔNIO NO INÍCIO SÉCULO XX

Com a chegada do novo século, a cidade foi conhecendo novos serviços públicos e novas tecnologias. Não foi diferente no Santo Antônio. Em 08 de dezembro 1912, chegou a “Linha 2” do bonde puxado por burros, facilitando o transporte dos cidadãos entre o Santo Antônio e outras regiões da capital.

A Capela de Santo Antônio foi elevada à Paróquia em 21 de dezembro de 1915. Foi quando a igreja passou por uma grande reforma, modificando os traços do templo construído no século XIX. Ganhou traços do ecletismo e em especial o estilo gótico, bem destacado na sua singular torre.

Em 13 de dezembro de 1917, chegou a luz elétrica ao bairro. Foi eletrificado o conjunto de casas do lado oeste da ladeira da Estada Nova (Casas à esquerda na foto da capa). Em 1919, foi a vez do esgoto e da água encanada em algumas casas do bairro. Depois as primeiras linhas telefônicas. Em 1926, os bondes elétricos passam a circular pelas ruas do bairro.

Na década de 1920, o entorno da Igreja foi traçado um logradouro público que recebeu um busto do então ex-presidente de Sergipe, José de Siqueira Meneses. Por ser o ponto urbanizado mais alto da cidade, clima ameno e ar puro, a praça foi por muitos anos local de veraneio de famílias abastadas. Se tornou local de moradia de figuras importantes da capital, como: Dra. Maria Rita; José Rolemberg Leite; Teodomiro Andrade; Coronel Silva Ribeiro e o Poeta Garcia Rosa. Inclusive Garcia Rosa abriu sua residência para a ‘Hora Literária’, que se tornaria mais tarde um embrião da Academia Sergipana de Letras. O local também era muito procurado por pessoas doentes, via indicação médica.

AS HOMENAGENS NOS LOGRADOUROS

Em 1921, o Campo do Cemitério muda o nome para a Praça Princesa Isabel, em homenagem ao seu falecimento. No dia 07 de setembro de 1922, na administração municipal Antônio Batista Bitencourt, a Estrada Nova se tornou Avenida da Independência, em homenagem ao centenário da Independência do Brasil. Também é nesse período que alguns sergipanos célebres da cultura, da política e literatura ganhariam homenagens com as nomenclaturas das principais ruas do bairro, devido ao centenário da emancipação política de Sergipe. São eles: Gumercindo Bessa, Sílvio Romero, Armindo Guaraná, Simeão Sobral entre outros.

Na década de 30, o bairro passará por muitas mudanças. Como a duplicação e melhoramentos da Avenida Independência. Que em 1934, após o falecimento do intelectual e filólogo João Ribeiro, por sugestão do Instituto Histórico e Geografico de Sergipe (IHGSE), o intendente Francisco Porto, mudou o nome da Avenida para João Ribeiro, permanecendo até os dias de hoje. Além disso, uma grande reforma foi feita na Praça Siqueira de Menezes, que recebeu belos jardins e iluminação pública moderna.

Além dos tradicionais bondes, começou a circular os vagarosos ônibus, popularmente chamados de “jardineiras”. A linha do Santo Antônio tinha o nome de Jubileu de Ouro, que segundo o memorialista Murillo Melins, seu ônibus pertencia ao carteiro Jerson.

DIVISÃO SOCIAL DO SANTO ANTÔNIO

Nesse momento da história, observamos que a Av. João Ribeiro, Av. Simeão Sobral e a Praça Siqueira de Menezes se destacavam pelos casarões das famílias mais abastardas e poderosas de Aracaju. Já no interior do bairro, nas matas e margens das principais vias, viviam os trabalhadores e a população mais humilde. Estes se destacariam na geografia do bairro nas seguintes direções: ao lado oeste moravam aqueles que fugiam da seca do Alto Sertão Sergipano. Já no lado leste, na fronteira com o Bairro Industrial, próximo a Mata dos Caboclos, a Matinha e as nascentes do Mané Preto habitavam os negros libertos, os operários das fábricas do Bairro Industrial e descendentes de índios.

Texto e imagens reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"Do Velho Aribé ao Siqueira Campos"

Praça Dom José Thomaz | Foto: Arquivo Municipal da Prefeitura Municipal de Aracaju.

Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 15 de novembro de 2017

"Do Velho Aribé ao Siqueira Campos". 
De Osvaldo Ferreira Neto.

Dando continuidade a nossa série especial “Aracaju e seus bairros”, iremos nos descolocar a oeste do nosso Centro. Chegamos a um dos bairros mais antigos e importantes da nossa cidade, o Siqueira Campos. Vamos conhecer esse local de tantas memórias? Vamos passear pelos estados do Brasil sem sair de Aracaju? Então vamos lá ao nosso Siqueira!

OS PRIMEIROS PASSOS DO ARIBÉ

Muitos que conhecem hoje o Siqueira Campos, não devem nem imaginar que o nome antigo era Aribé. Aribé? Sim, Aribé. Significa frigideira de barro grande, usada na região do rio São Francisco e no seu entorno. Na região havia uma grande produção de vasos de cerâmica, os aribés, dando origem ao primeiro nome do local.

O engenheiro Fernando de Figueiredo Porto chamava os bairros periféricas de “os arrabaldes do Aracaju”. Significa dizer que todos as localidades fora do Centro do Quadrado de Pirro eram regiões pobres. E assim era o Aribé. Sua população foi resultado da fixação de escravos libertos pós 1888. Trouxeram suas tradições e histórias, como o candomblé, que encontrará nessa região um refúgio e segurança para os cultos aos orixás. Além disso, vieram pessoas do interior do estado que fugiam principalmente da seca no Alto Sertão e dos conflitos provocados pelo cangaço.

A ESTAÇÃO DA LESTE

Com a chegada da ferrovia na década de 1910, a região acelerou seu desenvolvimento. Margeando o eixo ferroviário da capital sergipana, muitos passaram a desembarcar na região. Eram provenientes de várias locais do estado. Em fevereiro de 1914, as oficinas de manutenção da Estação Leste foram instaladas no Aribé. Com isso, as primeiras residências dos funcionários das oficinas e dos ferroviários trouxeram para a região o nome de “Oficinas”. Tinha um sentido restrito, abrangendo melhor a área que estava no entorno do conjunto de prédio das oficinas. Contudo, o nome Aribé sempre preponderou.

No ano 1923, na administração municipal de Adolfo Espinheira, notando o aflorar do desenvolvimento urbano do local. Determinou seu levantamento topográfico e o plano de arruamento. O trabalho foi realizado pelo topografo e auxiliar técnico da Intendência Municipal, Basílio Martins Peralva. As novas ruas teriam 15 metros de largura, em vez dos 13,20m, vigentes no resto da cidade. Adotou-se o critério de que elas teriam os nomes dos estados brasileiros. Uma homenagem à nacionalidade.

O ARIBÉ SE TRANSFORMOU EM SIQUEIRA CAMPOS

Oito anos depois, no dia 06 de janeiro de 1931, o bairro Aribé mudaria de nomenclatura para Siqueira Campos, através do Ato n° 1. O novo nome é em homenagem ao herói tenentista Antônio de Siqueira Campos, que participou da Revolta dos 18 do Forte Copacabana e da Revolução de 1930. A mudança aconteceu na gestão do Intendente Camilo Calazans.

Os anos 30 e 40 foram momento de progresso e desenvolvimento do Siqueira Campos. Começando com a chegada da energia elétrica em 12 de março de 1933. A primeira residência do bairro a ser eletrificada foi a casa nª 470, na esquina entre as ruas Amazonas com Santa Catarina. Após a região começou a ganhar visibilidade na cidade. Muitos proprietários de terrenos começaram a lotear e vender muitos desses lotes. Dentre os proprietários estão: Mariano Salmeron, Carlos Corrêa e Mário Valois. Muitos deles dão nomes a logradouros públicos do bairro.

PRAÇA DO SIQUEIRA, O CORAÇÃO DO BAIRRO

No dia 12 de maio 1944, era fundada a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes. A igreja foi construída pela própria comunidade, que literalmente meteu a mão na massa. Outras grandes instituições e prédios públicos também foram construídos. Por exemplo, a primeira instituição pública municipal de Educação Infantil de Aracaju. O Jardim de Infância José Garcez Vieira foi inaugurado em 11 de novembro 1944. A escola tinha como finalidade atender uma parcela da população quase que totalmente excluída das poucas políticas públicas de educação. Ambos localizados na famosa Praça do Siqueira.

Nesse período, a então Praça do Siqueira, era um campo aberto de areia branquinha e uma grande Lagoa no centro que se chamava Lagoa do Barro Vermelho. Nesse período é aterrada e a Praça iria ter os primeiros traços de um importante logradouro público. No ano 1948, na administração de Marcos Ferreira de Jesus, a Praça do Siqueira recebe o nome do primeiro Bispo de Aracaju, o Dom José Thomaz Gomes de Souza.

O MERCADO E OS CINEMAS

Também nos anos 40, a grande feira do bairro ganha o Mercado Municipal Carlos Firpo. As margens da linha férrea, recebia muitas mercadorias que chegavam à Aracaju nas composições dos trens.

Com o passar dos anos, de 1950 até os anos 80, o bairro se tornaria o maior de Aracaju. Com três cinemas bem movimentados. São eles: ‘Bonfim’ e ‘Vera Cruz’ na rua Carlos Correia (antiga rua Goiás) e o ‘Plaza’ na Rua Santa Catarina (hoje a Catedral da Igreja Universal).

A DIVERSIDADE RELIGIOSA

Falando em igreja, é nesse período que chegam grandes Igrejas Evangélicas ao bairro. Como a Assembleia de Deus na Rua Bahia, a Congregação Cristã na rua Amazonas, a Igreja Batista Memorial na rua Paraíba e a Igreja Universal do Reino de Deus na rua Santa Catarina. É construída também a Capela da Santa Cruz, na esquina da Rua Sergipe com Quintino Marques, e a Capela Santa Rita de Cássia. Além disso, nesse período também chegava os primeiros Centros Espíritas na região. Com todos esses espaços religiosos no bairro (além dos Terreiros, citados no início do texto e que permanecem até hoje), o Siqueira Campos ficou conhecido também pela diversidade religiosa.

AS ESCOLAS DO SIQUEIRA

Seguindo, no início da década de 60 foi inaugurado na Escola Paroquial o “Instituto Dom Fernando Gomes”, em homenagem ao segundo Bispo de Aracaju, o Dom Fernando Gomes. Outros grandes colégios públicos e privados também são fundados, como: Presidente Vargas, Rodrigues Doria, General Siqueira, Cristo Rei etc.

O CEMITÉRIO E A FÁBRICA DE CIMENTO

Já em 12 de março de 1964, foi inaugurado o maior cemitério público da cidade, o Cemitério São João Batista. No final dos anos 60 chegou a primeira fábrica ao bairro. A Fábrica de Cimento Poty da Votorantim, que vai se instalar na Avenida Rio de Janeiro. Porém, o empreendimento causou grande impacto ambiental e trouxe sérias complicações à saúde dos moradores do local e adjacências. Após a transferência da fábrica foi construído o condomínio residencial Vivendas de Aracaju.

A CASA DO SERGIPE

Vizinho à antiga fábrica está o Estádio João Hora de Oliveira. Fundado no dia 26 de Julho de 1970, foi recebido pelos moradores e torcedores da Rua Amapá. Eles fizeram uma grande campanha para a transferência da sede do “Gipão” para o bairro. O Club Sportivo Sergipe deixava à Praça Inácio Barbosa, na Rua da Frente, no São Jose para o Siqueira Campos. Nesse mesmo período foi fundado o conjunto habitacional Costa e Silva.

E assim foi se desenvolvendo o Siqueira Campos. Hoje é um pedacinho significativo da nossa Aracaju. Muitos dizem que é um segundo Centro, pois tem tudo: bancos, supermercados, colégios, lojas, clínicas, fábrica, estádio de futebol e muitos mais!

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Quadrado de Pirro: Nosso eterno centro (Parte 2)

Imagem: Antigo cartão postal de Aracaju

Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 8 de novembro de 2017

Quadrado de Pirro: Nosso eterno centro (Parte 2) 
Por Osvaldo Ferreira Neto.

Seguimos o especial “Aracaju e seus bairros”, da coluna “Senta que lá vem história”, com a segunda parte do Centro. 

Sem mais delongas, vamos lá…

NOVO TEMPO E UM NOVO CENTRO

Com o novo século XX e a República, a ordem era modernizar o Centro e concedê-lo ares de uma cidade republicana. Essas mudanças começam em 1904, quando o italiano Nicolau Pungitori inaugurou, na rua Japaratuba (hoje João Pessoa), o Teatro Carlos Gomes. Mais tarde transformado em Cine Teatro Rio Branco, seria por um bom tempo o principal palco de Aracaju e o templo da sétima arte.

Em 1908, no Governo de Guilherme Campos, foi implementado o sistema de bondes à tração animal. Em 07 de Dezembro de 1913, a cidade era iluminada pela luz elétrica. Chegou também nesse período a água encanada, esgoto e as primeiras linhas telefônicas ao Centro.

Em 05 de agosto de 1915, partia o primeiro trem da Estação Central de Aracaju da Rede Ferroviária Federal S.A. A Estação ficava no Centro Comercial, na região da atual Praça de Eventos Hilton Lopes nos Mercados. Ficou lá até 1950, quando o desembarque em Aracaju passou a ser na atual Estação da Leste, no bairro Getúlio Vargas.

NOVOS PRÉDIOS E ARQUITETURA

Com os governos de Rodrigues Doria, Siqueira de Meneses, General Valadão, Pereira Lobo e Graccho Cardoso, as praças centrais e os prédios públicos foram remodelados com os traços do ecletismo. Novos e importantes prédios ganharam espaços, como: a reforma eclética da tradicional Associação Comercial de Sergipe; a Escola Normal (atual Rua do Turista), em 1911; o Palácio Inácio Barbosa (antiga Prefeitura), em 1924; em 1926, o Mercado Antônio Franco e o Atheneu Pedro II (atual Museu da Gente Sergipana). Também no ano de 26 os bondes elétricos chegaram em nossa cidade e tem suas linhas ampliadas.

Nesse mesmo período grandes intendentes municipais, cargo equivalente ao prefeito nos dias atuais, eram nomeados e realizaram importantes obras. Como Teófilo Correia Dantas que construiu o Velatório Público na Praça Almirante Barroso. Já Camilo Calazans saneou várias vias centrais.

Na antiga Rua Japaratuba era onde se encontravam as principais lojas e estabelecimentos de alto padrão. Como: Fiat Lux, Café Central, o tradicional Ponto Chic, Chevrolet, Casa Colombo e Hotel Marozzi.

Nos anos 30, o estilo arquitetônico Art. Déco toma conta do Centro. O Palácio Serigy, Palácio Carvalho Neto, Quartel Central do Corpo de Bombeiros, Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IGHSE) e inúmeras residências tiveram o engenheiro civil alemão Hermann Otto Altenesch como principal criador.

A VERTICALIZAÇÃO E O AUTOMÓVEL

É na Rua João Pessoa, na década de 50, que o Centro começa a sentir a verticalização de Aracaju com o Edifício Mayara. O primeiro da região seria chamado popularmente de “A Moda”. O Edifício Aliança e o Edifício Santana também seguiam em direção aos céus. Nos anos 60, o Edifício do Hotel Palace. Em 1969 era inaugurado os 27 andares do Edifício Estado de Sergipe, o popular Maria Feliciana. Além de todos estes, outros iam tomando a área central de Aracaju.

Além da verticalização, nesse período o Brasil investia em malha rodoviária e na política automobilística. E o Centro sentiu os sinais. As marinetes faziam os transportes do Centro para outros bairros e municípios sergipanos. Em 31 de janeiro de 1962 era inaugurada a Estação Rodoviária Governador Luiz Garcia, na então Praça João XXIII.

O MORRO DO BONFIM

Para a construção da Rodoviária, foi necessário o desmonte do antigo e grande Morro do Bonfim. O morro de areia branquinha era ocupado por trabalhadores pobres que não podiam morar no restrito ‘Quadrado de Pirro’. Após o desmonte na década de 50, alguns receberam casas populares no Agamenon Magalhães e outros foram expulsos para ocupações que existiam na cidade. Segundo os jornais, moravam mais de 134 famílias na região. Para muitos líderes políticos da época e parte da burguesia sergipana, o Morro do Bonfim era inconveniente para a paisagem de Aracaju.

Segundo o pesquisador Luiz Antônio Barreto, “o desmonte do Morro do Bonfim criou várias alternativas para a urbanização do centro comercial e das ruas centrais: Vitória (avenida Carlos Burlamaqui); Bonfim (avenida Sete de Setembro, antes Nobre de Lacerda e Getúlio Vargas); Divina Pastora; Capela; Geru; Lagarto; Santo Amaro e Itabaianinha. Nivelado, o terreno foi imediatamente ocupado com diversas construções comerciais e administrativas, que foram logo incorporadas ao traçado da cidade”.

UM CENTRO FESTIVO, BOÊMIO E DE LAZER

Como a área central era mais desenvolvida, era nela que estavam a maioria dos atrativos de lazer. Já foi dito que o Cine Teatro Rio Branco era o principal palco cênico e cinematográfico. Nele se apresentou famosos artistas, como: a cantora Bidu Saião, Joracy Camargo, Procópio Ferreira, a “Rainha do Rádio” Emilinha Borba e a atriz Eva Todor. Além do Rio Branco, o Centro tinha mais quatro cinemas que eram o popular ‘Rex’, o ‘Guarani’, o ‘Vitória’ e o sofisticado ‘Cine Palace’. Além dos cinemas, as sorveterias faziam parte do lazer do aracajuano no Centro. Eram elas a Primavera, a Iara, a tradicional Cinelândia e a Sorveteria Real (existente até os dias de hoje na Praça Almirante Barroso).

Era no Centro que ocorria o tradicional Natal da Praça Olímpio Campos com o lúdico Carrossel do Tobias e o saboroso Cachorro-Quente de seu João. Na área central acontecia também os desfiles dos carros alegóricos e os primeiros blocos carnavalescos da cidade. Os antigos desfiles de 7 de setembro na Praça Fausto Cardoso, a Procissão do Bom Jesus dos Navegantes e a Procissão de Nossa Senhora da Conceição, no dia 08 de Dezembro,  completavam o calendário festivo do nosso Centro.

Já a vida boêmia era animadíssima com os Cabarés, Cassinos e Bares. Destacavam-se ‘O Vaticano’, ‘Miramar’, mais tarde o ‘Xangai’, ‘Imperial’, ‘Cassino 8 de Julho’, ‘Shell’, ‘Cacique Chá’, ‘Bar do Português’, entre outros nas proximidades do Mercado Central. Muito dessa vida boêmia foi destacada em inúmeras obras do escritor baiano Jorge Amado.

O CENTRO HOJE E SEUS DESAFIOS

Não poderia passar sem lembrar que o nosso Centro hoje tem muitos desafios. Enfrentar o abandono, o mau uso dos espaços públicos, o tráfico e as drogas que tomam esta área. Além da poluição visual que danifica os prédios históricos e a destruição de muitos deles para dar espaço aos estacionamentos rotativos.

O Centro precisa de uma revitalização urgente. Um olhar mais democrático e contemporâneo para o uso de muitos prédios abandonados. O Centro tem um grande número de edificações vazias, sem utilidade, numa cidade com um grande número de trabalhadores sem-teto.

Precisamos olhar o Centro como um dos nossos principais cartões postais da capital e um lugar de muita memória. Esse bairro tem nas suas praças, vilas, mercados, becos, ruas e prédios a história da nossa Aracaju e de seu povo.

ALGUNS DADOS E SUA LOCALIZAÇÃO

O bairro Centro em destaque no mapa | Imagem: Google Maps
Segundo o levantamento do último Censo do IBGE, em 2010, o Centro tinha 7.572 habitantes. Os limites do bairro são: leste Rio Sergipe; oeste Avenida Pedro Calazans; sul Avenida Barão de Maruim; e norte Avenida Coelho e Campos. Os bairros vizinhos são: ao sul São José; oeste Cirurgia e Getúlio Vargas; e norte Santo Antônio e Industrial.

Clique nesta foto e conheça a nossa campanha de financiamento coletivo. Apoie esse projeto | Imagem: o artista sergipano Tintiliano abrilhanta nosso especial com sua obra de arte
Gostou? Semana que vem tem mais. Fiquem atentos, pois lançaremos os textos e vídeos sobre o bairro Siqueira Campos. Então acompanhem de pertinho a nossa série “Aracaju e seus bairros”. Passearemos pelas histórias, memórias e curiosidades dos nossos 39 bairros e a Zona de Expansão.

Texto e imagem reproduzido do site: expressaosergipana.com.br

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quadrado de Pirro: Nosso Eterno Centro (Parte 1)

Foto: Acervo do Professor Amâncio Cardoso.

Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, 01 de novembro de 2017

Quadrado de Pirro: Nosso Eterno Centro (Parte 1).
Por Osvaldo Ferreira Neto *

Para iniciar o especial “Aracaju e seus bairros”, da coluna “Senta que lá vem história”, nada melhor do que começar pelo Centro. Pois é por ele que a nossa querida Aracaju começou a se desenvolver. Então, vamos conhecer esse pedacinho da capital sergipana?

“Vamos pra Cidade?”, “Vamos pra lá pra baixo?”, “E aí, vai descer pro Comércio hoje?” … são com essas expressões populares que lhe chamo para conhecer a história do Bairro Centro.

OS PRIMEIROS PASSOS DO CENTRO

O Centro tem seu surgimento quando a cidade do Aracaju começou a emergir dos charcos, lagoas, mangues e dunas da antiga Praia da Olaria, que existia no povoado Santo Antônio do Aracaju. Essa região já estava sendo ocupada administrativamente desde de novembro de 1854. O recém chegado presidente da província, o carioca Inácio Joaquim Barbosa, transferiu a Alfândega e a Mesa de Rendas Provinciais. Ele tinha os mais claros desejos de prosperidade econômica para Sergipe. Criaram-se mais tarde uma Agência dos Correios e uma Sub-Delegacia Policial. Todos esses prédios públicos situando-se a margem direita do Rio Sergipe, na região da atual Praça Gal. Valadão.

O objetivo era o escoamento da produção açucareira provincial. Necessitava-se de um porto, pois já não se encontrava estrutura adequada e suporte em São Cristóvão. Todo o processo de transferência da capital é oficializado pela Resolução Provincial n° 413(94) que elevava essa região inóspita a condição de capital da Província de Sergipe del Rey.

Esse novo centro urbano planejado teve o engenheiro militar Sebastião José Basílio Pirro como projetista. Ele se encontrava aqui desde 1848, quando Inácio Barbosa, imbuído do espírito mais progressista e moderno da época, contratou Pirro para desenhar Aracaju sobre essa planície litorânea. O projeto seria de acordo com os modelos mais modernos das cidades da Europa no século XIX, a exemplo da grande reforma de Paris.

O TABULEIRO DE XADREZ

O Plano de Pirro se baseava no tabuleiro de xadrez, seu desenho tinha um quadrado de 32 quadras, cada uma com ruas de 110 metros. Tudo a partir de um ponto central, a Praça do Palácio (atual Praça Fausto Cardoso). Mas o plano se desenvolveu a partir da Alfândega (atual Centro Cultural de Aracaju) sentido sul, em direção da Avenida Barão de Maruim, margeando o rio, respeitando a simplicidade geográfica do relevo e rigor geométrico dos cálculos. As primeiras residências de alvenaria foram dos líderes da Região da Cotinguiba e de quem tinha apoiado a transferência da capital. As demais eram de palha e pau a pique, onde moravam os trabalhadores da nova capital.

Além dos primeiros prédios administrativos que ficariam situados nas proximidades da Alfândega ou nas margens do Rio. Em 1856 é erigida a primeira igreja católica de Aracaju, a Casa de Oração São Salvador (Larajeiras com joao pessoa) e a Assembleia Provincial (Escola do Legislativo da Alese). Nesse mesmo ano era colocado em prática as Posturas Municipais, que determinavam os primeiros passos das diretrizes urbanísticas que não contemplava os pobres e determinava 100 palmos de largura as ruas.

O IMPERADOR PASSOU POR AQUI

Em 1860 o Centro recebia a visita do Imperador D.Pedro II, a Imperatriz Tereza Cristina e sua comitiva. Desembarcaram no pequeno atracadouro de madeira que viria a levar o nome de Ponte do Imperador. Eles participaram de uma celebração na Igreja São Salvador e passaram uma noite hospedados no então Palácio do Governo (hoje a atual Delegacia da Receita Federal, na esquina da Praça Fausto Cardoso com a Av. Rio Branco). Foi nessa visita que a obra de construção do Palácio Provincial do Governo, que estava sendo erguido, foi vistoriada por Dom Pedro. A obra foi projetada pelo engenheiro Francisco Pereira da Silva, que tinha sido contratado por Inácio Barbosa para ajudar no projeto de Pirro. No ano 1863 o Palácio ficou pronto.

A CIDADE SE PREPARA PARA O SÉCULO XX

Outros prédios públicos também começavam a ocupar o Centro. Em 1869 a Cadeia Pública (atual Palácio Serigy, onde localiza-se a Secretaria Estadual da Saúde); em 1875 a Matriz da Conceição (atual Catedral Metropolitana); em 1890 o Tribunal da Relação (atual Memorial do Judiciário). Com esse conjunto de prédios, em estilo neoclássico, dava-se ao traçado de Pirro feições de uma cidade provinciana. A região se desenvolvia cada vez mais para o século XX que se aproximava e trazia novos ecos da modernidade.

Nesses últimos anos do século XIX, o Centro recebia novas definições do disciplinar Código de Posturas, aprovado pela Lei Provincial n°968 de abril 1871. A lei dificultava e segregava ainda mais o Quadrado de Pirro para os pobres. Eles eram empurrados para os “arrabaldes”, como dizia Fernando Porto em seus estudos. Cada vez mais o Centro era destinado aos mais ricos e poderosos.

No ano de 1873, a Câmara Municipal define as nomenclaturas das ruas do Tabuleiro. Capela, Santa Luzia, Arauá era incluídas no mapa como novos logradouros públicos. Já a rua dos Músicos vira Pacatuba; a rua Jabotiana se torna Itabaiana; Independência vira Santo Amaro; rua da Assembleia muda para Itaporanga; rua Pirro é alterada para Socorro e a rua da Conceição vira Japaratuba (hoje Rua João Pessoa). Enquanto as ruas da Aurora (a popular Rua da Frente), São Cristóvão, Laranjeiras, Maruim e Estância conservaram os nomes desde a fundação da cidade. A partir dessa alteração as ruas do Centro levaria os nomes dos principais municípios sergipanos até os dias atuais.

Gostou? Semana que vem tem mais. Fiquem atentos pois lançaremos a 2ª parte do artigo “Quadrado de Pirro: nosso eterno Centro” e finalizaremos a história do Centro. O Século XX chegou e um novo Centro começa a se moldar. Um Centro festivo, boêmio e de lazer ganha destaque na capital. E é claro que não deixaremos de passar pelo atuais desafios que o bairro enfrenta. Então acompanhem de pertinho a nossa série “Aracaju e seus bairros”. Passearemos pelas histórias, memórias e curiosidades dos nossos 39 bairros e a Zona de Expansão.

* Discente de História na Universidade Federal de Sergipe. Estagiou no Museu do Homem Sergipano e na Biblioteca Pública Epifânio Dória.

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br